A cidade irreal de Aécio Neves

07/03/2010

Cidade Administrativa em Belo Horizonte - Foto Henrique Souza

Inaugurou-se. Como o que se inaugura, como fenômeno, como espetáculo. Sensacionalista é a nova sede administrativa do Estado de Minas Gerais, projeto de Oscar Niemeyer, inaugurado pelo governador Aécio Neves e que recebe o título oficial de “Cidade Administrativa Presidente Tancredo Neves”. Mineiro, Aécio não aparenta ser tão neto de Tancredo, mais para Juscelino Kubischek, o ex-prefeito que há 66 anos inaugurava o conjunto arquitetônico da Pampulha, igualmente projerado por Niemeyer. Intencionalmente, ou não, o fato é que aqui repete-se a história. Assim como fizera JK, Aécio contrata o mesmo arquiteto para construir uma obra que, entre outras responsabilidades, oferece visibilidade política ao governador que pretende, se não nesta eleição, alcançar a presidência da república.

Há intenções técnicas e políticas na construção do novo complexo. Do ponto de vista político é o legado de Aécio; do técnico trata-se de um empreendimento econômico, uma loja âncora, principal indutor da especulação imobiliária que se instala, a partir de agora, no setor mais miserável de Belo Horizonte. A pobreza da cidade real faz sombra às expectativas de desenvolvimento trazidas pela Cidade Administrativa. Nas incontáveis favelas e ocupações informais do entorno, o preço dos aluguéis disparam. A resistência econômica se fortalece ante ao avanço, neste caso perverso, do Estado. Aos pobres, que pagam uma fortuna por um quarto num puxadinho, numa casa pendurada em área de risco, restará à invasão de uma outra encosta ou várzea de rio qualquer, renegadas pelo mercado imobiliário. O empreendimento de Aécio desperta um horizonte não tão belo quanto aquele que Belo Horizonte merece.

A transferência do poder público e de todos os serviços ligados a ele reforça um novo desenho urbano para a capital mineira, golpe de Estado contra a cidade. Enquanto cinquenta e três edifícios serão fechados no Centro já degradado, novos condomínios deverão ser construídos para dar abrigo tranquilo ao funcionalismo público, assustado com a precariedade social e urbana do entorno do novo local de trabalho. Perde significado o perímetro histórico planejado e construído para oferecer dignidade à capital mineira. Padarias, restaurantes, lojas, o comércio em geral e os serviços que permaneceram na área central, sentirão a perda da renda dos funcionários públicos que lá trabalhavam e circulavam. Para a nova cidade de Aécio não podem se mudar; lá não cabe cidade de verdade.

A arquitetura constrói imagens. Assim como JK, é a imagem construída o instrumento adotado por Aécio para disseminar a idéia afirmativa de progresso, de Estado forte. Associa-se ao “choque de gestão” – jargão adotado pelo governador mineiro que tanto seduz o eleitorado – que está lá representado, no desenho de Oscar Niemeyer: uma Brasília medíocre na periferia miserável de Belo Horizonte. Não conheço as intenções que moviam JK. Foram-se muitas gerações e daquela só me resta o mito. Aécio é presente, é real. Nessa prosa, sou eu romântico. Ele, a fera.

A lógica que desenha São Paulo

01/03/2010

Recorte do desordenado desenho da cidade de São Paulo

Na lógica de planejamento urbano na cidade de São Paulo, é a ausência de uma política habitacional – que atenda a crescente demanda por moradias – e de um sistema de transporte que com eficiência permita reduzir a distância casa-trabalho, que estimula as famílias de menor renda a ocuparem áreas que por força da lei e da física não devem ser ocupadas, como aquelas fadadas às enchentes e aos deslizamentos.

O aparecimento e crescimento de bairros informais dentro da cidade formal e legal é apenas reflexo do aparato jurídico-institucional que reforça a lógica do mercado imobiliário sobre a construção e transformação da cidade. Desde o século XIX o setor público tem surdidamente oferecido ao mercado os instrumentos necessários para que a responsabilidade do desenvolvimento urbano lhe coubesse. São Paulo não deixou de ser planejada, ao contrário, foram os instrumentos e dispositivos de gestão do espaço urbano apropriados por uma lógica que, ao longo do tempo, excluiu parte da população do acesso à cidade. Atraídos pelo centros e pólos econômicos localizados dentro do perímetro urbano, os trabalhadores de menor renda encontraram nas áreas impróprias ao assentamento urbano – como várzeas de córregos, rios ou encostas íngremes – a oportunidade de morar próximo ao trabalho, sem depender do ineficiente sistema de transporte coletivo.

O amdurecimento institucional e social do país tem despontado para novas práticas de gestão pública, que no sentido da palavra difere da privada. A história urbana de São Paulo cobra da sociedade os indicadores de violência e desigualdade social; expressões como “meio ambiente” e “cidadania” ganham força entre setores da classe média. Apesar desse princípio de transformação de consciência, as velhas práticas e políticas persistem. Estruturado de modo a mudar o curso do planejamento da cidade, o Plano Diretor que está em vigência desde 2002 ainda não foi regulamentado. Pior, não há esforços dos poderes executivo e legislativo para tanto, uma vez que o planejamento proposto não interessa ao setor imobiliário que, segundo o Minstério Público, financiou de 20% a 30% da campanha eleitoral do prefeito Gilberto Kassab e sua base governista. Na sua base ideológica, o Plano Diretor retiria a conta da desigualdade social da classe média (que tem pago por meio de sequestros e assaltos) e a transfere para o mercado. Mediante o pagamento de uma “taxa” por onerar a cidade, o poder público cobraria do setor imobiliário os malefícios provocados pelo adensamento urbano, base financeira da ciranda especulativa que rende bilhões de reais em lucro para as construtoras. Assim, a partir da construção de um novo shopping center, por exemplo, o poder público conseguiria recursos para investir na mitigação de todos os impactos que este provoca, do trânsito à atração das famílias com menor rendimento.

A ausência da regulamentação do plano diretor reflete na nebulosidade institucional e jurídica que tem aberto espaço sem prescedente para atuação do mercado imobiliário, ao mesmo tempo que deixa o poder público sem todos instrumentos de gestão urbana que potencializaria o ordenamento e planejamento integrado da cidade. O resultado é uma política que facilita a implantação de empreendimentos imobiliários, aquece o mercado e eleva o custo do sólo, “empurrando” a população de menor renda para os municípios periféricos, que ante o crescimento demográfico explosivo ficam fragilizados pela ausência de recursos técnicos e financeiros necessários ao planejamento e desenvolvimento urbano. São Paulo decresce, perde população, se torna o vazio dedicado a especulação imobiliária, enquanto na periferia o vazio físico e institucional oferece espaço à informalidade e ilegalidade: propriedades rurais são loteadas clandestinamente em desacordo com a legislação ambiental, áreas de encostas e várzeas de córregos são ilegalmente ocupadas, reproduzindo e reforçando a lógica de crescimento urbano que São Paulo vive há aproximadamente 150 anos.

A permanência e resistência desta lógica é fruto do posicionamento político e ideológico da maior parte dos setores da sociedade, que reexpressam aquilo que é expresso e impresso nos veículos de comunicação, cujos maiores clientes se encontram justamente no mercado imobiliário. Sem espaço para o debate necessário à transformação da cidade, prefere o cidadão paulistano abandoná-la do que reconhecer que a desordem é fruto de seu próprio desejo e espírito.

Que progresso é esse?

27/12/2009

O que é de interesse privado pode ser de interesse público, desde que haja responsabilidade social.

6 Fev 2009 … SÃO PAULO – A capital paulista tinha, às 19h30m, 172 quilômetros de vias congestionadas, recorde de filas este ano, segundo a Companhia de … (FSP)
7 Mar 2009 … Após chuva, congestionamento bate recorde do ano em São Paulo … e Tráfego (CET) registrou 201 km de congestionamento em São Paulo às 19h … (OESP)
10 Jun 2009 … A cidade de são Paulo registrou às 9h desta quarta-feira o segundo maior congestionamento do ano no período da manhã, com 163 km de lentidão … (O Globo)

“Quebrar recordes” é admirável, principalmente aqueles que demonstram a destreza e capacidade do ser humano. Leio na manchete dos jornais: “Industria automobilistica investirá R$ 12 bilhões”, ou “Produção diária de automóveis bate 3 milhões de unidades”, ou “Mercado Imobiliário aquecido bate recorde de lançamentos” ou ainda “PIB cresce 6,8% no segundo semestre”. Manchetes positivas alimentam o ego de um novo Brasil e a retomada do modelo desevolvimentista.

“São Paulo registrou às 19h desta quarta feira 293 km de congestionamento, batendo recorde que já havia sido registrado na manhã do mesmo dia, com 233 km, superado… (O Estado de São Paulo, 29 de junho de 2009)”. Muitas vezes escutei que o caos que vive as cidades brasileiras é consequencia da ausência de planejamento. Não é verdade. O que foi, e é comum no país, é a subordinação do planejamento urbano ao planejamento macroeconômico, tanto verticalmente – da macro sobre a microeconomia – quanto horizontalmente, com os planos urbanos beneficiando o desenvolvimento econômico em detrimento do desenvolvimento urbano.

Outro grave problema é o domínio do interesse privado sobre o poder público. O que tenho notado ao trabalhar em parceria com as prefeituras, é que é comum a todos os municípios o desejo em aumentar a receita orçamentária e a capacidade de investimento. A solução comumente adotada para esse desafio tem sido prevalecer os interesses das chamadas “secretarias de desenvolvimento” sobre as demais. Na maior parte dos entes federativos, elas tem sido “comandadas” por lideranças empresariais, que ganham autonomia administrativa para espelhar a gestão de uma empresa privada na gestão da administração pública. Seja com boa ou má intenção, o arcabouço ideológico do sujeito empresarial faz com que as cidades sejam ordenadas sob os interesses de classe – especificamente dos sindicatos empresariais – que patrocinam, ou subsidiam, projetos para os municípios. A obra, que aparenta ser de interesse público (cordeiro), disfarça, em verdade, o interesse privado setorial (lobo).

A falta de qualificação técnica e de princípios ideológicos nos gestores públicos- sem os quais é impossível compreender a dimensão do interesse coletivo – fragiliza a gestão municipal. A principal fragilidade é a ausência de integração entre as políticas públicas, único meio de estabelecer eixos e linhas de atuação, que enfrentem de modo macroestrutural os desafios para o desenvolvimento adequado das cidades. Não há desenvolvimento econômico, se não há um mercado de trabalho qualificado (educação), se há violência urbana (desigualdade social) ou problemas de infraestrutura que impactam o sistema da saúde. O que vejo, na maior parte das prefeituras com as quais convivo, é justamente o contrário. O Brasil não está preparado para crescer à taxas de 6% a 7% ao ano com responsabilidade social, econômica e ambiental. A crueldade não é o desenvolvimento em si, mas o seu modelo e este, na maioria dos casos, acaba sendo importado, como alguém que compra um produto. Chega a ser ingenuo a importância atribuída às imagens de paisagens urbanas dominadas por arranha-céus, viadutos, túneis e avenidas, como se fosse correto atribuir exclusivamente à paisagem os sinônimos de progresso e desenvolvimento. Mas que progresso?

2046: uma interpretação

04/11/2009
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Pôster do filme de Wang Kar Wai

O filme 2046, do diretor Wang Kar Wai, é indiscutível obra de arte, não só por seus aspectos físicos impecáveis – fotografia, direção de arte, som, edição e montagem – mas, principalmente, pela abordagem histórica e política do roteiro. Ao tratar o filme com abstração, noto que há nele uma metáfora, um enigma, uma comunicação subjetiva que, no meu entender, reporta à transição da Modernidade para a Pós-Modernidade e os desdobramentos na construção das relações humanas na sociedade contemporânea.

O filme imbrica dois períodos de quarenta anos  – 1966 à 2006 e deste ano à 2046 –, ambos referencia de passado, presente e futuro. Por meio de registros cinematográficos, Kar Wai desloca o espectador à década de 1960, época em que é consolidada a idéia de cultura como um produto a ser politicamente empregado por regimes totalitaristas (capitalistas e comunistas) na formação ideológica das grandes massas. Aquele momento é marcado por dois acontecimentos  importantes para a história contemporânea: os movimentos estudantis e de contracultura na Europa – que à revelia de protestos em Paris e outras capitais, não impediu o posterior e permanente avanço do capital sobre a cultura – e a Revolução Cultural na China, em 1966. Mesmo que operando sob lógicas distintas, tanto o capitalismo quanto o comunismo, então inflamados pela Guerra Fria, encontraram os meios necessários para afirmar seus ideais totalizadores, no cerne da formação intelectual do sujeito, a cultura. Cenas destes períodos são mais um dos pontos da história fragmentada de 2046, filme que interpreto no momento de seu lançamento em 2006, como uma crítica aos desdobramentos do fim da modernidade e ascenção da pós-modernidade no mundo globalizado, no qual a China se insere como ator importante.

O roteiro do filme é determinado pelo seu próprio protagonista, o escritor Chow Mo-wan. No que aparenta ser um corredor de hotel, Chow deve escolher o quarto de sua estada, com consciência velada de que atrás de cada porta encontrará a história de outro personagem e que a partir de sua escolha o futuro assumiria destino específico: quarto 2045, 2046 ou 2047?
A melâncolia de Chow aparenta estar na impossibilidade da continuidade histórica dos ideiais da modernidade, o que leva à fragmentação do roteiro, característica da pós-modernidade. Como hóspede de um hotel – metáfora com a vida e com o mundo no qual estamos em estadia temporária – é que Chow Mo-wan escreve a história de 2046, número do quarto vizinho ao seu. O filme passa e a história se desloca para um trem que viaja em alta velocidade, sem paradas, sem desembarque, onde o destino dos personagens está submetido a um comando maior. O trem parece representar um simulacro, circula em uma rede ferroviária avançada e remota, fixa no lugar e no tempo, aparente metáfora com a produção cultural contemporânea, que gira em círculo, cria pastiches com elementos de períodos distintos do passado e não encontra significado no futuro.

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Cenas do filme.

A fragmentação e imbricação de diferentes histórias em diferentes períodos reflete a dificuldade da sociedade contemporânea em estabelecer temporalidade linear na produção artística e cultural, causa e efeito da ausência de um olhar para o futuro, de uma meta de evolução, características que eram marcantes na modernidade. Como no trem que viaja em alta velocidade no filme 2046, a humanidade não vê possibilidade ou certeza quanto ao destino ou meta à alcançar, especialmente por estar cada vez mais sujeita à lógica de mecanização dos processos criativos e operacionais; para o novo mestre do cinema global,  nosso destino está cada vez mais em poder de computadores; o trem de Kar Wai em 2046 é a espaçonave de Kubrick em 2001. Seja como for, interpreto na película de Wong Kar Wai  as consequências do abandono das ideologias, reflexo do fim das vanguardas artísticas e da Modernidade, o que, aparentemente, não se aplica ao filme 2046 e seu diretor.